Bom, é verdade.. quando alguém sai da nossa vida, a gente sempre subtrai. Cada pessoa é uma infinidade de coisas e, se ela vai embora, leva todas essas coisas com ela. Tudo. De bom e de ruim.
Você, assim como eu, é capaz de listar duas, dez, mil coisas sobre alguém que foi embora. Significa que você enxerga a beleza do outro, e isso é lindo. É saudável e importante reconhecer as qualidades do outro. Normalmente, ver o há de bom no outro diz mais sobre a gente que sobre o outro, inclusive.
Mas e você?
Mas e você?
Quem perde você, perde o quê?
Às vezes a gente esquece quem é. Ou, mais que isso: às vezes a gente esquece tudo o que é. As mil coisas que vão embora, quando alguém abre mão da gente.
Não é mais fácil pra mim.
Eu só faço questão de olhar a subtração direitinho. Olho pro que fica e acabo vendo que, quem abre mão de mim, segue subtraído de tudo que eu sou.
Quem me perde, perde o apoio inquestionável, o carinho fácil, a preocupação doce. Perde as piadas ruins fora de hora (que normalmente são o tempo todo), a conversa que flui como nenhuma outra, o estar junto simples e sereno que basta em si. Perde o companheirismo implacável pros momentos em que o resto do mundo desaparece. Vai comigo o respeito, a lealdade, a memória que decora cada palavra, cada gesto, o achei-que-vc-fosse-gostar-comprei-pra-vc.
Vai embora comigo a mão do cafuné quase involuntário. O abraço no meio da noite. E da tarde. E de qualquer hora. Vai comigo o brilho nos olhos ao ver chegar. O ouvido, o ombro e o colo pré dispostos. Comigo vai a alegria, a força, a cia da viagem longa e chata, do filme ruim, da bagunça na cozinha e das referências imbecis. Na minha mala vão todas as ideias e soluções sobre todos os problemas que não são meus, mas viram, pq eu sou assim. Vai comigo o olhar que admira, o sorriso orgulhoso das vitórias do outro.
E não é o outro quem tem que saber disso, sou eu. Se a pessoa abriu mão, deixo que ela siga subtraída de mim. Às vezes a pessoa perde sem saber. Sem dar a chance, sem abrir a porta. Perde no medo, na hesitação, na certeza - que, na verdade, ninguém tem - sobre o amanhã.
Perde, ou mais que isso: escolhe perder, por medo, por trauma, por inquietação, por preguiça de tentar, por ter criado um muro em volta da própria vida, ou por qualquer outro motivo. Mas perde. E fim.
A gente não pode nunca deixar de olhar pra si e ver com clareza o que é. Tudo que você é. Todas as mil coisas. O que você é, é valioso. Tudo que você é, só você é.
Quem me perde, quem abre mão de mim, perde em mim um monte de coisas. Que eu sei. Que eu vejo claro. Que eu conheço sobre mim. Esta perda não é minha, é do outro.. e eu sei direitinho tudo que a pessoa subtrai de si mesma quando eu vou embora.
E você?
Quem perde você, perde o quê?